quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Mensagem de Sua Excelência o Presidente da República de Cabo Verde alusivo ao Dia internacional da Língua Materna, 21 de Fevereiro de 2013

A senhora Directora-Geral da UNESCO abriu o seu discurso por ocasião do Dia Internacional da Língua Materna, em 2011, com esta frase lapidar:
“As línguas maternas têm um papel fundamental em nossas vidas, pois são o meio pelo qual verbalizamos o mundo pela primeira vez, sendo as lentes pelas quais começamos a entendê-lo.” 


A língua materna não nos ajuda apenas a ver o mundo mas também, e sobretudo, a construir o nosso mundo interno, a nossa personalidade, a nossa relação connosco e com os outros.

Enquanto criação colectiva, profundamente marcada por vicissitudes históricas, a língua materna assume o papel ímpar de ser, simultaneamente, parte do ser individual e esteio da cultura de todos.

É através dela que nos iniciamos no alfabeto da afectividade, na aventura da comunicação, que cada um aprende a ser eu ao mesmo tempo que se assume como Nós.

Talvez, sem ela jamais pudéssemos sentir sodade, vivenciar morabeza e saber o que é um Kretxeu.

É bem verdade que foi na nossa língua materna que nos foram contadas as primeiras estórias envolvendo Lobo & Xibinho, Nha Tiaganga, os Gongons e demais figuras que preencheram o nosso imaginário infantil.

É também na língua materna que vieram expressas as primeiras mornas, coladeiras, funaná e cola sanjôn que nos deleitaram.


Se outro valor não se pudesse associar à Língua Materna, o facto de ser o meio pelo qual captamos o mundo, verbalizamos as nossas sensações e percepções e encomendamos a nossa primeira refeição seria o suficiente para a colocar no cimo das prendas que recebemos quando começamos a interagir no e com o Mundo.

As nossas primeiras preces, os nossos primeiros votos, os nossos primeiros segredos e os nossos primeiros conhecimentos são modulados na língua materna. Tudo quanto constitui a base em que se ancoram os nossos conhecimentos para a vida - as novas línguas, as novas habilidades, a maneira de ser, de estar e de comunicar – foi fabricado e instalado tendo como instrumento principal a língua materna.
  
É mais do que evidente que a língua materna é um dos nossos traços culturais mais fortes. Um dos elementos que mais caracterizam a nossa singularidade no mundo é a nossa língua materna.

Ela é uma ferramenta através da qual, no nosso quotidiano, nos afirmamos como povo que tem uma história concreta de relação profunda com determinado espaço físico, num tempo histórico específico, em permuta constante, por vezes difícil, com outros povos, com outras culturas, com outras línguas maternas.

Ela espelha de modo particular a nossa vocação integradora que, contudo, por vezes se exprime de modo contraditório.

É também através dela que de Boston a Cova da Moura ou a Furna, ou de Luanda a Cova Figueira ou a ponta Belém, a cantar, a falar, a respirar, nos afirmamos como povo com uma identidade própria, com um destino que, em comum, construímos.

Foi através dela que recentemente proclamámos ao mundo que “nô ta sinti feliz de ter nascide cabo-verdiane” e que gritámos aos quatro ventos: “ Tubarom azul é Bodona”.
  
É porque esse património de todos nós tem um valor inestimável e ocupa um lugar cimeiro no nosso pensamento, nos nossos sentimentos e na nossa acção, num mundo que cada dia se complexifica e procura descaracterizar as originalidades, que ele tem de ser preservado e dignificado nas perspectivas cultural, operacional e política.

Consideramos da maior importância o debate em curso sobre o devir deste pedaço unificador da nossa cultura, o qual terá de ter por objectivo final contribuir para que a nossa língua materna seja cada vez mais valorizada e dignificada. 

Acredito que os referenciais instalados na memória dos cidadãos aquando da aquisição originária da língua materna são fundamentais para a aplicação prática dos conhecimentos que, entretanto, se foram e se vão acumulando.
  
Para terminar, recupero aqui mais esta asserção deixada pela senhora Directora-Geral da UNESCO na sua mensagem, por ocasião desta efeméride, em 2011:

“A partir da língua materna, o aprendizado de outros idiomas deve ser uma das altas prioridades da educação no século XXI.” 

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